sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Mexeu com ela, mexeu comigo


Beatriz Vargas Ramos

No debate da SBT, Aecim explorou todos os bordões que fazem o delírio dos anti-petistas e, para isso, ele tem a seu favor a desinformação, o ódio ideológico e a “mídia judicante”, para usar da expressão de Nilo Batista. Penso que ele desrespeitou os cidadãos brasileiros, eleitores ou não, ao transformar um debate político, que deveria ser de exposição das propostas que vão orientar o governo dos próximos anos no Brasil, em performance retórica, abusando da ironia e das tiradas agressivas. Infelizmente, ele é quem deu o tom, apostando na estratégia (arriscada) da pancadaria, tudo muito ensaiado e premeditado, sob a orientação de sua equipe de marqueteiros. Fez o estilo “eu mijo grosso!”, ou “aqui tem testosterona!”, tão do agrado dos inimigos da Dilma e do PT.
Dilma não tem retórica de palanque eleitoral ou de tribuna e esse formato de debate – essencialmente igual nas três emissoras, Band, SBT e Globo – não a favorece (e que fique bem, claro, para mim Aecim não é “o” orador e seu estilo é bem anacrônico, até na entonação, principalmente no discurso de palanque, talvez seja de propósito...). Aliás, esse formato de debate, que de debate nada tem, também não favorece o eleitor que está querendo entender as diferenças entre os programas de governo dos dois candidatos.
Quando a conversa é sobre propostas, quando a discussão política ganha nível e complexidade, Dilma é muito melhor que Aecim. É o que aconteceu, por exemplo, nas sabatinas. Quando desafiado a falar do seu projeto de governo, ele não se sai bem, perde o domínio da situação, usa de evasivas para responder sobre assuntos para o quais não está bem preparado, numa palavra, oferece respostas fracas. Ele fica tenso quando tem que falar de política, mas muito à vontade quando a coisa vira briga. Ele e sua equipe sabem que a chance de vitória depende disso, evitar a discussão política e partir para a agressão. Aecim está chamando a Dilma para o campo em que ele se sai melhor do que ela, o terreno da luta livre, da baixaria – embora ele diga as baixarias com aquela pose de “sinhozinho” bem-nascido, herdeiro da Casa Grande, pose de menino educado pela vovó, aquele que não faz orelha no caderno escolar e que não fala palavrão perto da mamãe e do papai.
Do estilo político conservador ele traz outro bordão, aquele de falar em nome de Minas, como se Minas fosse o seu curral e os mineiros fossem o seu rebanho, como se ele – disse a Dilma – “fosse Minas”. E de novo ele teima em repetir que Dilma não conhece Minas Gerais. Num ponto ele tem razão. Dilma não age como sendo desta ou daquela cidade, deste ou daquele Estado da Federação. Ao contrário, o estilo dela é cosmopolita, não está mesmo presa às fronteiras geográficas, ela tem a cara do Brasil inteiro, ela não reivindica nenhuma capitania hereditária, nenhum feudo, ela é uma mulher do mundo, em pé de igualdade com qualquer outro estadista. Acontece que Minas faz parte da história dessa mulher e ninguém pode tirar isso dela. Além disso, Dilma não teme o passado e deve, sim, invocá-lo tantas vezes quantas for preciso. O passado é a memória, ele nos constitui, sem passado não há presente nem futuro. O passado é a história, a experiência, o aprendizado e pode e deve ser aproveitado como ferramenta de construção do futuro. Ninguém dirige sem olhar para o retrovisor.
Está claro que Aecim fez sua aposta na adrenalina, no acirramento dos ânimos, no “combate ao inimigo”. A insistência na “tese”, atribuída aos petistas, da divisão do Brasil entre “nós e eles”, por exemplo, é um chamamento ao confronto. Insistir nessa afirmação, atribuindo essa “tese” aos petistas, é, ao contrário do que parece, esquentá-la ainda mais, colocar lenha na fogueira, não deixar morrer a brasa. Aecim precisa dessa imagem do inimigo para vencer as eleições.
O objetivo do PSDB, desde antes do início da campanha, sempre foi o de minar a Dilma exatamente naquilo em que ela é respeitada, ou seja, sua condição reconhecida de boa gestora. Ela tem um domínio de gestão pública que o Aecim não tem. A ideia tucana, uma vez fracassada a tentativa de colar na Dilma a etiqueta de corrupta, era a de destruir a imagem da gestora. Aí Deus mandou a delação premiada e, pelo que vimos ontem, voltaram a jogar todas as fichas no plano B, buscando identifica-la com o mensalão, por intermédio do vazamento relativo à Petrobrás – que, como se sabe, não é de petróleo, mas de delação. Delação, essa coisa asquerosa que faz do dedo-duro um herói, um arauto da verdade. Quando essa coisa asquerosa chamada delação (que Juarez Tavares e Frederico Figueiredo muito bem definem no artigo “O que se esconde na delação premiada”, na Carta Capital) ameaça se voltar contra o partido de Aecim (o delator aponta o ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra, recebeu propina para esvaziar uma CPI da Petrobrás), ele responde com um ataque feroz, acusando a Dilma de pertencer a uma organização criminosa chamada PT. Aqui o ódio ideológico ultrapassou todos os limites e o respeito ao adversário, que Aecim tanto alega prezar, foi parar na sarjeta, saiu pelo ralo. Ele usa perversamente de um preconceito que pode se voltar contra ele mesmo, o de que todo político é corrupto. Esse preconceito aplicado ao PT toma grandes proporções, em parte, graças à super-exposição do caso na mídia. Muita gente “percebe” o mensalão como sendo o “maior escândalo” de corrupção do País (eu penso que o tempo vai se encarregar de calibrar essa imagem hoje destorcida, mas isso é outro assunto...). O fato é que Aecim se aproveita do preconceito e investe nele fortemente. Poderia ter dado a única resposta que um homem público decente, sobretudo quando aspirante ao cargo de Presidente da República, deveria oferecer, qual seja, a de que nenhuma suspeita pode se transformar em condenação, com base em publicações de trechos selecionados da fala de um delator, menos ainda quando esse vazamento acontece às vésperas das eleições. Se respondesse assim, não seria o Aecim...
Espertamente, ele não se atreveu a fazer nenhuma consideração negativa em relação ao ex-presidente Lula, buscando o isolamento de Dilma, poupando Lula e, sobretudo, poupando a si mesmo de eventuais consequências nefastas de um ataque ao líder carismático do PT. Não somente poupou Lula de qualquer acusação, como também foi simpático nas vezes em que se referiu a ele. Agora, claro, é a imagem de Dilma que deve ser vinculada à corrupção. O ponto alto do ataque foi a grave acusação que Aecim fez contra a Presidenta, ao dizer que “não existe uma terceira opção, ou a senhora foi conivente ou a senhora foi incompetente para cuidar da maior empresa pública brasileira” (a grande ironia é que se dependesse do PSDB, a Petrobrás não seria nem brasileira e nem pública). Aecim escolheu a forma dúbia de acusar. Covardia. Fugiu da fala direta, embora ninguém possa dizer que não tenha acusado. A pior forma de fazer política é com ódio – ou simular o ódio para produzir o efeito da guerra.
Naquela hora, passei mal. Minha pressão caiu, senti um forte enjôo, tive que tomar uma dose de sal de fruta Eno. No sofá da minha sala, assistindo a uma gravação do debate, ensaiei várias respostas. Perdi a compostura. A Dilma não perdeu. Ponto pra ela.
É fácil acusar quando não se tem a responsabilidade de provar. É a lógica do linchamento, deixemos as provas para depois. Acusação produz efeito bombástico e, novamente, acirra os ânimos, causando na falange agressiva aquela sensação de vitória, de humilhação do “inimigo”. Dilma respondeu. Não deixou de responder. E também bateu. Também acusou. Aliás, se a coisa era luta livre, não se pode dizer que ela tenha sido nocauteada, como andaram espalhando.
Eu gostaria muito de ver a Dilma de volta ao debate político de verdade. Vamos ver se o outro candidato vai deixar. Talvez ele repense a estratégia da grosseria e do deboche. Penso que exagerou, passou dos limites. Há um grande risco nessa postura, o feitiço pode virar contra o feiticeiro. Tudo depende do impacto que sua encenação vai causar no eleitor. Até agora, ele conseguiu agradar a quem já havia decido votar nele, mas a outra parte do eleitorado não necessariamente vai querer votar no Rock Balboa para Presidente. Como diz outro recente herói nacional, Bob Jef, também conhecido como Roberto Jeffersson (não sei bem quantos “ff” e “rr” ele tem no nome), Aecim virou Rock Balboa. O filme a gente sabe como termina, mas a eleição pode não sair como no cinema.

Quando Aecim ainda cheirava a leite em pó, Dilma já havia ingressado na militância de esquerda contra o regime militar. A história dessa mulher e sua prática na Presidência são a prova mais eloquente de que ela merece a confiança dos brasileiros. Ao dizer que o homem público ou a mulher pública devem, todo dia e a cada dia, dia após dia, demonstrarem, com suas ações, que estão à altura de desempenhar sua missão, Dilma, a meu ver, foi no ponto certo. Só os arrogantes pensam que estão acima e além de qualquer coisa.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Argentina X Alemanha

A derrota da Argentina na final da Copa foi mais difícil para mim do que a derrota que o Brasil sofreu da Alemanha. É claro que não se pode dizer que aquele gol do Götze, quase ao final do segundo tempo da prorrogação, tenha sido um lance de sorte, pois o futebol que a Alemanha mostrou nessa Copa foi um senhor futebol. Acontece que a Argentina fez um belíssimo jogo. Merecia ganhar. Se ganhasse, ninguém poderia dizer que foi por acaso. Poderia ganhar, porque revelou estatura de time campeão e proporcionou, ombro a ombro com a Alemanha, um tremendo espetáculo de bola. Houve lances em que a vitória ficou muito próxima dos argentinos. Para mim, é inegável que nosso vizinho equilibrou a partida. Houve momentos em que dominou mesmo. Mas, enfim, a Alemanha não perdeu a oportunidade que surgiu naquela hora em que tudo indicava que a vitória chegaria da disputa por pênaltis. Veio um cruzamento de esquerda e esse foi o minuto de ouro não desperdiçado, o momento bem aproveitado. O verso filosófico – ou a filosofia poética – de Horácio posto em prática, “colhe o dia”. Dessa vez, a bola entrou. Poderia não ter entrado. Oportunidades melhores apareceram antes e nem assim a bola havia entrado. Klose, aos 35 do segundo tempo, tinha chutado de frente para o gol e a bola não havia entrado. Dessa vez, com Götze no lugar de Klose, a brazuca encontrou o caminho. Foi dramático. A bola ainda foi parar no pé de Lionel Messi para a última cobrança de falta. Subiu demais... Nem sei se subiu, o fato é que não entrou. Resultado, a Argentina perdeu. Perdeu, sim, mas não fracassou. Podem até dizer que as duas palavras são sinônimas, mas, para mim, são diferentes em modo e em intensidade. Com licença dos entendidos, tanto no idioma quanto no futebol, explico a diferença. Perder é uma possibilidade entre duas, numa disputa justa entre bons adversários. Fracassar é carregar o peso da entrega. A Argentina não se entregou, apenas perdeu para o time de melhor preparo técnico, como todos dizem. Essa é a grande lição que a Argentina dá no dia de hoje, lutar bravamente pela vitória. Não foi fácil para a Alemanha bater o time de Messi. A matemática do placar não diz outra coisa. Foi por um gol, um, nada mais. A outra bela lição é da Alemanha, claro. Os alemães não exibiram o futebol de “um” craque, mas o futebol de uma verdadeira equipe. De minha parte, fiquei triste com a derrota da Argentina. Queria que a taça não cruzasse o Atlântico, queria que ficasse desse lado do planeta. Ninguém manda no coração do torcedor...

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Muros e túneis, uma arquitetura da violência
Beatriz Vargas Ramos

Um trecho específico me chamou a atenção em um programa de TV que foi ao ar pela Band, em 21/07/2014. O repórter estava no centro de Jerusalém. Encontrou uma manifestação de apoio ao bombardeio promovido pelo governo de Israel na Faixa de Gaza e escolheu uma jovem, aparentemente ainda na adolescência, para responder à seguinte pergunta:
Por que vocês estão aqui nesta noite?
A jovem estava na companhia de outros tantos jovens, alguns adultos e até crianças. Quase todos portavam bandeiras de Israel. Ela deu a seguinte resposta:
É nosso dever. É bom para o mundo todo. O Hamas quer nos matar, só porque somos judeus e isso é um erro”.
Seguiu-se outra pergunta sobre como chegar à paz em meio a tanta violência e a jovem respondeu que não iria falar de paz, insistindo na mesma afirmativa anterior: “O Hamas quer apenas nos matar”. Uma simples frase, uma frase impressionante.
Ninguém que disponha de um mínimo de informação sobre os conflitos entre Israel e Palestina vai levar a sério a “explicação” da jovem israelense entrevistada. A frase – “just because we’re jews” – não é apenas a simplificação de um problema complexo de dimensões catastróficas, sobretudo para os palestinos, é também, e paradoxalmente, um exagero, o da vitimização. Exibe as indisfarçáveis notas de uma auto-defesa comiserativa e, ao mesmo tempo, oculta outras explicações possíveis e, assim, funciona como um esforço de justificação para os ataques brutais e para o tratamento desumano dispensado a milhares de palestinos, ao longo de um processo que já se aproxima da marca dos 70 anos.
O que diz a jovem israelense manifestante é, no entanto, o que uma grande quantidade de pessoas, sobretudo dentro de Israel, repete, ressoa, repercute, reproduz à exaustão, até o ponto de acreditar na versão de que a violência do Hamas contra Israel possa ser reduzida à lógica do “ódio aos judeus”. Não deixa de ser um recurso de auto-imunização contra a violência praticada contra outros seres humanos.
Penso que nos dias atuais é cada vez menor o número de pessoas às quais pareça convincente o argumento de que a violência do Hamas contra Israel ou as próprias críticas ao governo israelense, mesmo as mais duras, sejam diferentes expressões de uma mesma coisa, ou seja, de antissemitismo.
Não que o antissemitismo e, de resto, qualquer tipo de preconceito étnico tenham sido banidos da face da terra. Sabemos que não. Pensar que a derrota dos fascismos e o repúdio à experiência da Shoá, para não dizer “holocausto” – algo que nunca mais deverá ser repetido – sejam a garantia do fim dos preconceitos é crença que supera até mesmo os limites da pura ingenuidade. É inegável, entretanto, que hoje em dia – para dizer muito pouco – existem menos antissemitas no mundo do que havia até a Segunda Guerra Mundial. Além disso, um discurso antissemita ou um discurso preconceituoso em geral – para dizer um pouco mais – não é o tipo de fala que se faz atualmente em praça pública, sem atrair reações fundadas na defesa dos direitos humanos, parâmetros de respeito à dignidade humana que, sem dúvida, se tornaram mais fortes depois que a história do extermínio nazista foi narrada em primeira pessoa para o mundo inteiro. Basta lembrar que a Declaração Universal dos Direitos do Homem das Nações Unidas data de dezembro de 1948. No mesmo ano, em maio, foi oficialmente instituída a criação do Estado de Israel. Um discurso de preconceito não tem legitimidade política.
Israel, justamente por ser um Estado pequeno, ou para usar da expressão com que o porta-voz do governo de Israel, Yigal Palmor, se referiu ao Brasil, um Estado “anão”, já foi visto no passado como Davi diante de Golias. Essa imagem bíblica bem representou a vitória de Israel contra a coligação árabe formada pelo Egito, Jordânia e Síria, seguida da ocupação militar israelense da Cisjordânia e da Faixa da Gaza, das Colinas de Golã e da Península do Sinai.
Naquele tempo, ano de 1967 – eu tinha lá meus 6 anos de idade – a vitória israelense arrasadora, particularmente humilhante para Gamal Abdel Nasser, atraiu a atenção do mundo e rendeu ao pequeno país respeito e admiração da opinião pública internacional. Não é que eu traga lembranças do noticiário de 1967, mas posso dizer claramente que cresci ouvindo elogios à bravura de Israel e relatos comprobatórios da “superioridade intelectual” de seu povo e sobre a justiça da criação do seu Estado livre e independente.
Em 1967, Tony Judt, historiador inglês – e judeu – tinha 19 anos. Ele relembra, em 2006, a opinião dos estudantes na Universidade de Cambridge, na primavera de 67, “majoritariamente pró-Israel”. Afirma Judt, no ensaio intitulado O país que não queria crescer, publicado no Brasil em 2010, pela editora Objetiva (Reflexões sobre um Século Esquecido: 1901 – 2000, tradução de Celso Nogueira): “... todos prestavam pouca atenção à condição dos palestinos, ou à aliança anterior de Israel com a França e a Grã-Bretanha, que levou à desastrosa aventura em Suez, em 1956”. Acrescenta que “na política e nos círculos que elaboravam as políticas, só especialistas em assuntos árabes conservadores e antiquados criticavam o Estado de Israel; até os neofascitas chegavam a aprovar o sionismo, com base no antissemistismo tradicional”.
Ainda no meu tempo de ginásio, fiz um trabalho escolar sobre o Estado de Israel, sua criação, sua capital, bandeira, economia e, enfim, o grande destaque, o kibutz. Meu professor de geografia, disciplina para a qual o trabalho era requerido, mostrava-se especialmente entusiasmado com a experiência israelense dos kibutzim. Ele dizia que eu possuía semelhanças físicas com Anne Frank, o que me levou a pesquisar a história e buscar imagens da menina judia. À minha disposição – não havia computador, internet ou Google –, enciclopédias, livros escolares, textos de história e revistas, como O Cruzeiro, e as de circulação em língua portuguesa, como a Revista Seleções, o Reader’s Digest, que meu pai assinou por algum tempo. Tudo o que me chegou às mãos, e que representava, na verdade, as fontes de informação de maior circulação para a média dos brasileiros ou para a grande maioria dos leitores, eram textos elogiosos, relatos simpáticos e favoráveis a Israel. Nenhuma crítica a Bem-Gurion, Levi Eshkol, a Moshe Dayan ou a outros líderes israelenses. Nenhuma análise mais aprofundada ou vertical da política sionista. Nenhuma oposição consistente ao governo israelense.
Hoje esse cenário mudou. É comum a crítica ao sionismo e à política do governo de Israel. O Estado de Israel não se harmoniza mais com a imagem do Davi contra o Golias. Ao revés, está mais para um gigante, arrogante e opressor, ao menos em termos militares. Sua primeira usina nuclear foi construída ainda nos anos 60 e atualmente não se sabe ao certo o número de ogivas nucleares que possui e não se tem a exata definição do tipo e da quantidade de suas armas atômicas. Há especulações trabalhando com hipóteses diversas, entre elas a de que o arsenal nuclear israelense está no mesmo nível dos franceses e dos britânicos. Essas não são informações do tipo que se obtém com facilidade, não são alardeadas pelos Estados em geral – exceto, é claro, quando podem gerar algum tipo de proveito político e, nesse caso, carregam também a suspeita de mero blefe.
Acredito que para a maior parte das pessoas da minha geração, é facilmente perceptível, da década de 70 até o presente, o arrefecimento daquele clima geral de aprovação aos sucessivos governos de Israel. Durante meus tempos de militância no movimento estudantil universitário em Belo Horizonte, nos anos 80, a esquerda internacional já não possuía mais nenhuma ligação política com o Estado de Israel. Uma sonhada parceria entre a esquerda e Israel é algo tão implausível no presente que, talvez, falar disso aos jovens que hoje têm a idade dos meus filhos produza o mesmo efeito de uma narrativa de ficção. No movimento estudantil da minha época, a questão palestina não era tema central das discussões políticas dominadas, ao que me lembro, pelo sindicato polonês Solidariedade, pelas comemorações da “bazucada” que exterminou Anastácio Somoza, pelas manifestações contra o Ministro Ludwig, o general da pasta da Educação e, na sequência, pela Central Única dos Trabalhadores no Brasil, a política sindical no ABC paulista e a filiação – ou não – ao recém-criado Partido dos Trabalhadores.
Novamente Tony Judt, em texto produzido a partir de conversas com estadunidense Timothy Snyder, professor de história na Universidade de Yale, intitulado O King’s e os kibutzim: sionista de Cambridge (Pensando o Século XX. Trad. Otacílio Nunes. Rio: Objetiva, 2014), lembra que “Stalin foi a parteira de Israel”.
Segundo Judt, “a visão da esquerda, tanto os comunistas quanto os não comunistas, era que, por razões ideológicas e genealógicas, um Estado que abrangesse judeus do leste-europeu de origens socialistas certamente devia ser um parceiro solidário. Mas Stalin logo percebeu, mais rápido do que a maioria, na verdade, que a trajetória natural de Israel seria fazer uma aliança protetora no Ocidente, em particular levando em conta a crescente importância do Oriente Médio e do Mediterrâneo para a segurança e os interesses econômicos ocidentais”. Para o historiador inglês, “o restante da esquerda demorou a entender isso: ao longo da década de 1950 e de boa parte da de 1960, Israel ainda era associado com a esquerda política e intelectual dominante e admirado por ela”. Segue afirmando que, “na verdade, o país foi governado durante suas três primeiras décadas”, ou seja, de 48 a 78, “por uma elite política composta exclusivamente de autointitulados social-democratas de algum tipo”.
Se Stalin foi parteira de Israel, quem o embalou e o criou, com ele mantendo fortes laços de colaboração e amizade, foi o Tio Sam – cumprindo-se aquilo que, segundo Judt, havia sido antevisto pelo ditador soviético. Há momentos, no entanto, em que essa amizade se converte numa carga pesada para os E.U.A., tornando-se difícil e problemática para o país que, a despeito de sua hegemonia no mundo atual, também tem interesses na preservação de suas “credenciais democráticas” – mais ainda depois do 11 de setembro, data a partir da qual essas mesmas credenciais foram duramente atingidas.
Um desses difíceis momentos é representado, por exemplo, pela operação Margem Protetora que vem se desenrolando sem nenhuma expectativa de conclusão, e, especialmente, o dia 30 de julho, quando as forças israelenses bombardearam uma escola da ONU, usada como acampamento por famílias palestinas desabrigadas. O resultado foi a morte de pelo menos 15 pessoas.
Josh Earnest, secretário de imprensa de Barack Obama, denominou de “inaceitável” e “indefensável” o ataque perpetrado por Israel. Do lado israelense, persiste a afirmação de que a operação está longe de acabar. Binyamin Netanyahu reitera que a ofensiva só termina quando os túneis usados pelo Hamas forem neutralizados. Foram convocados mais 16 mil reservistas, o que dá o total de 86 mil soldados envolvidos no massacre. De todas as operações israelenses na Faixa de Gaza, no total de três desde 2008, esta é a mais longa e a mais “mortal”, segundo a Folha de S.Paulo. Os números oficiais publicados em 2 de agosto dão conta de 1.459 mortes entre os palestinos, a maioria civil (nesse número não estão contabilizadas as 129 mortes que o Hamas alega haver resultado do bombardeio israelense do dia 1º de agosto, às 10:30h da manhã, em Rafah e outros 50 alvos em Gaza). Do lado israelense, ainda segundo os números oficiais, são 63 pessoas mortas, 60 soldados e 3 civis. O cessar-fogo humanitário de 72 horas, iniciado na manhã do dia 1º de agosto, terminou nas primeiras horas. No campo da guerra das palavras, Hamas e Israel apresentam, cada qual, uma versão distinta sobre quem rompeu a trégua. Barack Obama já escolheu sua versão – ou seja, a verdade oficial já foi definida e, claro, está do lado do governo de Israel, porque, afinal, palavra de terrorista não merece sequer o benefício da dúvida. Por outro lado, como é sabido, o governo de Israel não mente jamais. Dessa vez, o presidente Obama vem a público para dizer que “será muito difícil a negociação de outro cessar-fogo se a comunidade internacional não tiver confiança de que o Hamas o cumprirá” – ou, traduzindo-se, o mundo precisa saber que o Hamas não merece trégua; a matança da população palestina deve ser colocada na conta dos danos colaterais, inevitáveis e, mais que isso, justificados. Na fala de Obama surge o mesmo argumento do editorial do Washington Post, “o dilema de Israel é ter de atacar os militantes palestinos sem atingir civis palestinos”.
A amizade com Israel produz um Tio Sam bipolar. Ontem, ele ralha e censura; hoje, conforta. Conforta a ponto de aprovar mais US$ 225 milhões ao sistema israelense de “defesa antimíssil”. É quase certo que Obama irá sancionar a medida do Congresso estadunidense que, à evidência, não se justifica pelo número de mortos de cada lado.
Antes do bombardeio à escola da ONU, hospitais e igrejas já haviam sido atingidos e o elevado número de mortos entre a população civil, incluindo jovens e crianças, é “lamentado”. Lamentam até mesmo os críticos do Likud ou da ocupação israelense na Cisjordânia, invocando o argumento de que não existe alternativa para a defesa da soberania de Israel e da integridade de sua população.
Na coluna de Julia Sweig, também na Folha de S.Paulo, 30/07/2014, a articulista cita o editorial aquele editorial do Washington Post como as “melhores palavras” que encontrou para “descrever o cinismo”:
“A perversidade da estratégia do Hamas parece passar despercebida de boa parte do mundo externo, que – aceitando o roteiro traçado pelos terroristas – culpa Israel pelas baixas civis que ele causa. Enquanto crianças morrem nos ataques à infraestrutura militar que os líderes do Hamas posicionam deliberadamente em casas e no meio delas, esses líderes permanecem em segurança em seus túneis”.
O mal lamentável é, contudo, inevitável. O mundo caiu na cilada do Hamas e não vê que o Estado de Israel é obrigado a tirar a vida de milhares de palestinos, desempenhando o único papel que lhe cabe no roteiro do filme de horror intitulado “Matem nossas crianças”.
O mesmo argumento ressurge todas as vezes que uma igreja, um hospital ou uma escola são atingidos. Culpa dos terroristas. Levado às últimas consequências, o argumento é para nos convencer de que os palestinos são, na verdade, vítimas do Hamas, ou vítimas de si mesmos, ou falsas vítimas. Nessa versão, a verdadeira vítima continua sendo Israel.
O mais irônico é que um argumento desse tipo já foi, no passado, construído contra os judeus, na mesma linha, ou seja, foram eles os culpados pelo extermínio nazista, ou, no mínimo, eram os cordeiros que marcharam em fila, resignados, para o abate. A “passividade submissa dos judeus” em direção à morte, em oposição ao “heroísmo israelense”, foi tema de artigos de Ben-Gurion e de textos produzidos pelo Davar, órgão do partido Mapai, como nos conta Hannah Arendt, por ocasião do julgamento de Eichmann em Jerusalém. Durante o julgamento, o promotor perguntava às testemunhas, judeus sobreviventes dos campos de concentração, “Por que você não protestou?”, “Havia 15 mil pessoas paradas lá, com centenas de guardas à frente – por que vocês não se revoltaram, não partiram para o ataque?”. Se os judeus chegavam “pontualmente nos pontos de transporte, andando sobre os próprios pés para os locais de execução, cavando os próprios túmulos, despindo-se e empilhando caprichosamente as próprias roupas, e deitando-se lado a lado para serem fuzilados”, responde Arendt, “parecia uma questão importante” para o efeito pedagógico do julgamento de Eichmann, “mas”, responde ela, “a triste verdade é que (a questão) era tomada erroneamente, pois nenhum grupo ou indivíduo não judeu (sujeito às mesmas condições) se comportou de outra forma” (Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Cia das Letras, 1999).
Por intermédio de outras vozes, agora provenientes da direita abertamente alinhada à política de Reuven Rivlin e Netanyahu, o argumento de que “a culpa é da vítima” é retrabalhado numa dimensão esquizofrênica, na qual as mortes dos civis na Faixa de Gaza obedeceriam ao método do “escudo humano”. Assim, os mortos teriam sido convocados a morrer pela Jihad e aceitaram a política do auto-aniquilamento. Nessa outra linha, Israel é novamente a verdadeira e eterna vítima do ódio, concentrado ou difuso, local ou universal, e não faz mais do que tornar possível o “suicídio em massa” da população civil na Faixa de Gaza.
Seja lá com que interesse, qualquer pessoa que sustente essa versão de “escudo humano” voluntário faz muito pouco de nossa capacidade de interação com os fatos, com a realidade.
Não, não estamos todos alucinando. Não é isso o que testemunham as imagens exibidas a cada dia pela TV e pela internet. Não estamos assistindo às cenas dos cordeiros que se deixam imolar, e a toda a sua família, para sujar de sangue as mãos limpas de Netanyahu e, com isso, servirem de escudo moral para o Hamas, conquistando o paraíso muçulmano, ou, quem sabe, facilitando a limpeza étnica, com a morte do último palestino na Faixa de Gaza.
Ainda que todos os 1.459 mortos, até agora, do lado da “falsa vítima”, estivessem, todos os 1.459, de pleno acordo com o método do auto-aniquilamento, ainda assim, o fato é que aos olhos do mundo Israel não ocupa mais o lugar da vítima.
A resposta da menina israelense referida no início, aquela frase impressionante – “o Hamas quer apenas nos matar, apenas porque somos judeus” – é anacrônica, não faz sentido nos dias de hoje, não convence o mundo de que a matança é justa e, mais, de que é a única resposta que o governo israelense pode oferecer. A jovem não quer falar de paz. Está empenhada em convencer sobre a necessidade do massacre.
Essas imagens paradoxais que a política do governo de Israel exibe para o mundo inteiro – nas palavras de Judt, “somos muito fortes/somos vulneráveis”, “controlamos nosso destino/somos vítimas” – realmente, não há como discordar do autor, não constituem nenhuma novidade, mas, ao contrário, estão imbricadas na identidade do país “praticamente desde o seu início”.
Tony Judt fala de uma “vitimização machista” como tom predominante na atual narrativa nacional de Israel que, segundo ele, é “prova de uma espécie de disfunção cognitiva coletiva que tomou conta da cultura política israelense”. Fala de uma “mania de perseguição longamente cultivada – ‘todo mundo quer pegar a gente’ – (que) não desperta mais comiseração”, mas, ao revés, “atrai comparações indesejáveis”, como, por exemplo, “Israel é a Sérvia com armas nucleares”.
Para ele, “(...) os palestinos substituíram os judeus como a minoria emblemática, perseguida: vulnerável, humilhada, despatriada. Em si esta distinção involuntária pouco faz pelo avanço da causa palestina (assim como pouco ajudou os judeus); mas redefiniu Israel para sempre. Tornou-se lugar-comum comparar Israel a um colonizador ocupante, na melhor das hipóteses, e, na pior, com a África do Sul e suas leis raciais e os bantustões”.
O historiador segue dizendo que “essas comparações são letais para a credibilidade moral de Israel”, pois “atingem aquilo que foi um dia seu mais forte argumento: a alegação de ser uma ilha vulnerável de democracia e decência num mar de autoritarismo e crueldade; um oásis de direitos e liberdade rodeado por um deserto de repressão. Mas democratas não isolam povos desamparados em bantustões, depois de conquistar suas terras; e homens livres não ignoram as leis internacionais e tomam as casas de outros homens”.
Outro historiador contemporâneo, Ilan Pappe, israelense, professor em Exeter, na Grã-Bretanha, um dos maiores críticos do sionismo militarista, fala de uma limpeza étnica levada a cabo pelos governantes de Israel contra os palestinos, desde 1948. Diz que a história oficial de Israel oculta a “catástrofe” – Nakba – que se abateu sobre os palestinos naquele ano, resultado da execução do Plano D, Dalet, do primeiro governo sionista. Denomina de “memoricídio” – como morte, apagamento, da memória coletiva de um povo – a narrativa oficial israelense construída paralelamente à expulsão e ao massacre de milhares de palestinos, jamais assumida como tal, mas como “abandono voluntário”, por parte dos palestinos, de seus lares (The Ethnic Cleansing of Palestine. Oxford: Oneworld Publications, 2007). Segue uma tradução livre de trecho elucidativo da denominada limpeza étnica:
“A organização (ONU) discutiu o conceito (de limpeza étnica) a sério, em 1993, o Conselho da ONU para os Direitos Humanos (CDH) liga o desejo de um regime de estado ou de impor regra étnica em uma área mista - como a confecção de Grande Sérvia - com o uso de atos de expulsão e outros meios violentos. O relatório do ACNUR publica atos definidos de limpeza étnica como incluindo a separação de homens das mulheres, a detenção de homens, explosão de casas e, posteriormente, repovoamento das casas restantes com outro grupo étnico. Em certos lugares no Kosovo, o relatório observou, as milícias muçulmanas tinha colocado resistência: onde esta resistência tinha sido efetiva, a expulsão implicava massacres. O Plano D, de 1948, de Israel, contém um repertório de métodos de limpeza que, um por um, se encaixa no modo como a ONU descreve sua definição de limpeza étnica, fornecendo o pano de fundo para os massacres que acompanharam a expulsão maciça”. É sabido que, de 47 a 49, foram cometidos mais de 30 massacres contra o povo palestino.
Sobre Ilan Pappe, da Wikipédia: "Antes de deixar Israel, ele havia sido veementemente condenado no Knesset, o parlamento de Israel. Um ministro da educação havia pedido a sua demissão da universidade, e sua foto havia sido publicada em um jornal, no centro de um alvo. Além disso, Pappe havia recebido várias ameaças de morte".
Esse não é, repita-se, o comportamento de um governo democrático. A liderança política de Israel, nos dias de hoje, encontra oposição não somente fora, mas também, embora minoritária, dentro do território israelense. É absolutamente equivocado supor que o governo de Israel represente a todos os judeus, dentro e fora de Israel – repito. A crítica ao sionismo não pode ser, tout court, definida pelo antissemitismo, como muitos querem fazer acreditar, sustentando que os “inimigos dos judeus” são aqueles que “culpam os israelenses pela violência na Faixa de Gaza, absolvendo o Hamas”. Trata-se de uma postura simplificadora e maniqueísta, idêntica àquela que orientou o governo de Bush Júnior no período posterior a 11 de setembro de 2001, cujo pano de fundo era a luta “do bem contra o mal”: “quem não concorda comigo é inimigo meu”. Judeus que se opõem ao sionismo não o fazem “apesar” de serem judeus, mas exatamente “porque” são judeus. É óbvio que há diferentes críticas – não falo de acusações temerárias e mal-intencionadas –assim como há distintos olhares ou explicações sobre a responsabilidade dos governos de Israel na manutenção do conflito. O que não é mais possível, contudo, é querer barrar a discussão pelo uso, à exaustão, da estratégia de deslegitimar o “adversário”, sob a acusação de “ódio aos judeus”, e simplesmente seguir adiante com as ações comprometedoras das “credenciais democráticas” de Israel e desastrosas para sua “credibilidade moral”.
Desconheço um único crítico da política sionista que não aponte a ocupação da Cisjordânia como um exemplo de comportamento equivocado e até mesmo “insustentável”. Hoje, condenar (ao menos) a desproporcionalidade dos ataques em Gaza é ou deveria ser, no meu modo de ver, esse sim, um “dever” para quem, judeu ou não, acredita numa política internacional pautada nos princípios humanitários e defende maneiras distintas de lidar com a questão Israel/Palestina. Nenhum governo de Israel, de 1991 até o momento, ofereceu – para ficar com o período de inauguração oficial das tratativas de paz na região – aos palestinos alguma coisa realmente consistente, no sentido de favorecer uma mudança drástica e radical, capaz de substituir o cenário dos muros e dos túneis.
Quem realmente defende a existência de Israel como Estado nacional, autônomo e independente, não apenas uma pátria para os judeus, mas também um território de coexistência pacífica entre pessoas distintas, entre etnias diferentes, como algo possível e desejável em qualquer lugar do mundo, tem razões de sobra para temer pelo futuro da região e também pelo futuro de Israel. Os muros de 8 metros que avançam além dos limites da chamada linha verde, correspondente ao traçado original a ONU, engolindo 10% da Cisjordânia e separando cidades palestinas inteiras, não vão garantir para sempre a defesa de Israel – defesa que também é a justificativa para os muros.
Pedem-nos – a essa “boa parte do mundo” – para “dar a Israel o benefício da dúvida na defesa imperfeita de sua soberania”, dizem-nos que estamos obedecendo ao roteiro traçado pelo Hamas, solicitam-nos a compreensão para o dilema israelense mencionado por Barack Obama. O que esperam de nós? Que aceitemos a resposta de que não há outra forma de Israel se defender? Que nos conformemos com a matança e o êxodo forçado de milhares de palestinos como a única solução justa?
Pedem-nos que aceitemos a catástrofe, sem a mais tímida demonstração de que podem avançar em algum ponto dos necessários acordos para a construção da paz na região. Até mesmo os planos traçados com a intervenção dos E.U.A. são recusados pelos governos de Israel.
Atitudes como essas reforçam, de um lado, uma antipatia que vem tomando maiores proporções contra o Estado de Israel – no limite, essa antipatia serve de combustível ao discurso do preconceito, e de outro lado, uma desconfiança sobre os verdadeiros propósitos do governo de Netanyahu – como, por exemplo, por que razão o governo de Israel tolerou que a construção de túneis pelo Hamas avançasse por território israelense adentro; por que permitiu que essa rede chegasse a tais proporções?
O jornalista estadunidense Michael Keep, também na Folha de S.Paulo, oferece outra explicação – bastante mais plausível, a meu ver – para a deflagração da Operação Margem de Segurança:
“O que desencadeou o conflito mais recente entre Israel e Hamas não foi o assassinato de três adolescentes israelenses na Cisjordânia, em junho, ou o assassinato subsequente de um adolescente palestino por israelenses. O conflito foi causado, em grande parte, pela tentativa de Israel de enfraquecer um acordo de reconciliação feito em abril entre o Hamas, que governa Gaza, e o Fatah, que administra parte da Cisjordânia, e que resultou, em junho, em um governo de união. Assim que foi anunciado o pacto, Israel suspendeu as conversações de paz”.
Vale a pena transcrever as palavras do jornalista de 64 anos, radicado no Brasil, e autor do livro “Tropeço nos Trópicos”:
“O líder do Fatah e presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, prometeu que o governo de união reconheceria Israel (o que o Hamas não faz) e manteria o compromisso de buscar a paz com base na solução de dois Estados (Israel e Palestina). Mas isso não foi levado em conta pelo governo israelense, que vê o Hamas como grupo terrorista que busca a destruição do Estado judaico. O pacto ainda ameaça setores linha-dura de Israel que se opõem à solução de dois Estados – e sabem que uma liderança palestina unida seria requisito. Israel, além disso, continuou o bloqueio a Gaza em vigor há oito anos, que restringe a entrada de bens essenciais. E também suspende os salários dos 43 mil funcionários públicos de Gaza. Isso atingiu o bolso do Hamas, que enfrenta problemas financeiros desde 2013, quando deixou de apoiar o ditador sírio, Bashar al-Assad – o que levou o Irã, aliado dele, a deixar de financiar o grupo”. O governo egípcio já havia cortado a ajuda financeira ao Hamas, depois da deposição de Mohamed Mursi.
Enfim, e se não aceitamos o caráter justo e inevitável da operação Margem Protetora? E se o clima externo de desaprovação ao governo de Israel alcançar proporções realmente importantes? E se o Tio Sam se cansar de vez e reorientar seu interesse para outros objetivos? E se, como disse o escritor israelense Etgar Keret, em artigo do jornal El País, forem eliminados todos e cada um dos combatentes do Hamas, “alguém crê sinceramente que a aspiração dos palestinos à independência nacional vai desaparecer com eles?” – (coluna de Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo do dia 31/07/2014).
O apoio dos israelenses à operação em Gaza é inquestionável, ao menos de acordo com as pesquisas sucessivas do Instituto Democracia de Israel, realizadas em 14, 16-17 e 23 de julho (96%, 92% e 97%) – detalhe, os israelenses árabes não foram entrevistados. Parece certo que o governo de Netanyahu, com base no princípio democrático da maioria quantitativa, tem apoio interno para apostar na intensificação dos ataques.

Mas esse é apenas um episódio e não o epílogo de uma mesma série que já caminha para os 70 anos de existência. É preciso que os cidadãos israelenses comecem a refletir seriamente sobre uma outra lição da história, a de que os muros não são eternos. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


2012 + 1
Beatriz Vargas Ramos

O título que Leonardo Sciascia escolheu para contar a história do julgamento da condessa Maria Tiepolo é “1912 + 1”. É um jeito de se referir ao número 13 sem ter que escrevê-lo ou pronunciá-lo diretamente, uma forma de driblar o destino e esconjurar a má sorte. Contrariando as piores previsões dos supersticiosos do início do século XX, 1913 não foi o pior ano, ou pelo menos não foi o pior ano para muitos – é só lembrar que a Primeira Guerra Mundial ficou para o ano seguinte...
Recortei alguns fatos entre os muitos acontecimentos, públicos ou privados, que me chamam a atenção em 1913. Aí vão.
Em 1913, morre o pai de Picasso e nasce Vinícius de Morais. No México, Francisco Madero é executado e Victoriano Huerta assume o poder. Hitler se muda para Munique e Al Capone é expulso da escola. Diego Rivera expõe em Paris e em Varre-Sai é criada a paróquia São Sebatião. Enquanto o Parque Saavedra é inaugurado em Buenos Aires, Portugal começa a formar sua primeira esquadrilha com o submarino Espadarte. Freud escreve uma daquelas famosas cartas para Jung e Curitiba ganha sua linha de bondes elétricos. Nasce Rubem Braga, Kafka se encontra com Martin Buber e inaugura-se, no Rio, o bondinho do Pão-de-Açúcar. A fronteira entre Brasil e Uruguai é modificada no Arroio São Miguel.
1913 é também o ano em que nasce a mulher que iria se casar com Érico Veríssimo. Osvaldo Cruz toma posse na Academia Brasileira de Letras e o Flamengo vence o Mangueira por 11 x 0 (não sou flamenguista, não gosto de futebol, apenas me impressionei com o placar, coisa rara no futebol, principalmente no futebol de hoje em dia).
É criado o Distrito de Nova Beluno em Urussanga, futura Siderópolis, em Santa Catarina; Grécia e Sérvia declaram guerra à Bulgária; os socialistas italianos elegem 78 deputados ao Parlamento do Reino. No Vale da Morte, EUA, registra-se a temperatura de 56.6º C.
Venceslau Braz lança sua candidatura à Presidência da República e na Venezuela morre Eduardo López Rivas. Nascem Menachem Begin, em Brest-Litovsk, e Richard Nixon, em Yorba Linda. Nascem Klaus Barbie, na Alemanha, e Vivien Leigh, na Índia. Oscar Niemeyer já tinha nascido...
Ano de erupção vulcânica no México e de terremoto na Nicarágua, em 1913, Einstein ainda não havia se mudado para Berlim, minha avó Filhinha completaria 8 anos de idade e Gandhi seria preso na África do Sul. Nasce também Albert Camus e Heitor Villa-Lobos se casa com Lucília Guimarães. É descoberto um novo cometa e criada uma orquestra de jazz na Colômbia. Rui Barbosa retira sua candidatura à Presidência da República.
Cem anos se passaram, sortes e azares marcaram o tempo que contamos entre lá e cá. Escrever 2013 ou “2012 + 1” é uma questão de “ponto de vista”, afinal, 2013 é 5674 no calendário hebreu, 1291 no calendário persa, 1332 no islâmico, 4611 no calendário chinês e sei lá o que mais...
Por isso, seja lá qual for o ano em que você estiver, seja ele novo ou não, seja você ou não um supersticioso, quero lhe desejar, como disse um amigo muito querido, boas risadas no período!
Afinal, tem coisa melhor que uma risada gostosa, safada, livre, sonora, turbulenta, espalhafatosa, descontrolada? Daquelas que chegam a dar até dor de barriga e água nos olhos, daquelas que você deixa ecoar sem culpa e sem favor.
Gargalhar é coisa que todo mundo pode fazer. Em dó, ré, mi, fá ou sol – depende do naipe de cada um. Qualquer risada vale à pena. Pode ser gritada, miada, esganiçada, ganida... Ou pode ser profunda, grave, gutural. Pode ser afinada ou desafinada, ritmada, percutida, temperada ou destemperada, soprano, contralto, barítono, estilo papai Noel (com os lábios em "O"), Fafá de Belém (escandalosa mesmo!) ou Glorinha Kalil (risadinha básica), tanto faz. Uma boa risada pode ser denteada ou banguela, seca ou molhada, longa ou curta. Não custa dinheiro, não gera imposto e não faz mal à saúde, aliás, ao contrário. Uma advertência importante: certifique-se da hora e do lugar certos para liberar sua gargalhada. No mais, evite gargalhar de boca cheia, porque a risada precisa de espaço.
Enfim, uma boa risada é sinal de que tudo vai bem – ou, mais importante ainda, é sinal de que tudo pode melhorar. Além do mais, é altamente contagiante. Rir, sobretudo de si mesmo, é sinal de saúde, índice de prazer, sintoma de bem-estar e antídoto contra a “carrancudice” – com licença da palavra esquisita...
Assim sendo, um ano gargalhante pra vocês! Ou, no melhor estilo facebook, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012


Brasília
- ou o poeminha que eu cometi para Brasília –

O homem deveria ter nascido com rodas nos pés...
Ou asas?
Não, asas, melhor em São Paulo.
Brasília tem mais distâncias entre dois pontos,
tem mais chão.

Muitos Ibirapueras...
Ibirapués, Brasília!
(E o que será de mim?)

Aqui tem lago
- Pretexto de pontes –

Aqui tem fontes
De água mineral.

Juro que tem carnaval.

Tem invasão
- um pedaço “Paramois”! -

Tem contrabando?
Tem.

Também tem bando contra
E bando a favor.

Vitrine de arquitetura.
Planuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuura...
 - Central -

O verde é capital.
O vermelho também.
Quem disse que não tem
vermelho na bandeira nacional?

Brasília,
o céu mais lindo do Brasil,
o mais formoso céu,
o mais azul,
risonho e límpido
onde a bandeira brasileira
mais bonita resplandece.

Brasília é Nordeste
No Centro-Oeste
É Sampa, Rio, BH
Juiz de Fora
Rochedo de Minas
Ouro Preto, Diamantina
Itabira, Itabirito
Varre-Sai
Espera Feliz
Porciúncula
Natividade
Guaçuí
Muriaé
Catas Altas da Noruega
Conceição do Mato Dentro
Santa Bárbara do Tugúrio
É Alvorada, Pedra Dourada,
Carangola,
Tombos...

Não quero morrer em Brasília,
atropelada.

Também não vou me jogar da janela
do hotel onde Clarice ficou hospedada.

Nunca fiquei presa no elevador,
em Brasília.
Em Brasília eu nunca usei tailler.

É inútil procurar por montanhas...
Montanhas, pra quê?
Se os belos horizontes são infinitos?
(As montanhas aos cabritos!)

Ganhei um bilhete só de ida pra Passárgada
Mas não vou.
Não quero.
Eu quero ir mesmo é pra Mororó...

Me leva, meu bem, pra Mororó.
(Beatriz Vargas Ramos –
no dia 13, depois de um ano,
entre maio de 2004 e maio de agora)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012


Um epitáfio para Hobsbawm

Beatriz Vargas Ramos


O sociólogo Demétrio Magnoli brinda-nos com duas aparições na edição da Folha de S.Paulo do dia 10/10/2012. Na primeira, um texto de três colunas intitulado “O esqueleto que sorri”, afirma que o autor de Age of extremes (the short twentieth century: 1914-1991) “falsifica a história para absolver Stalin”. Resume o articulista, a “versão” de Eric Hobsbawm sobre a 2ª Guerra “foi aquela fabricada em Moscou”, afirmação, esta sim, capaz de fazer sorrir outros esqueletos, mortos ou vivos, porque bem ao agrado daquela direita que anunciou o fim da história com a queda do muro de Berlim. Na segunda aparição, ouvido a propósito do julgamento de José Dirceu (“repercussão”, coluna à direita), o sociólogo oferece o seu ponto de vista: “O STF decidiu aplicar a lei, que não exige atos de ofício, documentos assinados, gravações para se condenar”. E firma sua jurisprudência: “Essas exigências têm como fim assegurar a impunidade de poderosos”. A crítica raivosa e a opinião sobre o julgamento têm em comum a marca da simplificação catequista.
Somente quem não conhece nada da obra – ou da vida – de Hobsbawm corre o risco de concluir que o sociólogo está “desmascarando” um stalinista. O argumento mais forte nesse sentido é o fato de não haver renunciado “à carteirinha do Partido Comunista Inglês”. O texto é uma marmita requentada, cuja originalidade está na sugestão grosseira de um epitáfio para o historiador marxista. O articulista toma distância da boa crítica para fazer uma execração de base ideológica. Para ele, que vai buscar o “incontornável” epitáfio em Tony Judt, Hobsbawm deveria ser sepultado como um homem que “se recusa a olhar o mal de frente e a chamá-lo pelo nome” e que “nunca confronta a moral nem a herança política de Stalin e suas obras”. “Se ele seriamente deseja passar o bastão radical para as futuras gerações, este não é o modo de agir”.
A citação é um excerto extraído do ensaio de Tony Judt, Eric Hobsbawm e o romance do comunismo, cuja primeira versão foi publicada no New York Review of Books, em 20 de novembro de 2003, volume 50, nº 18, sob o título original The Last Romantic – Interesting Times: A Twentieth-Century Life by Eric Hobsbawm[1], no qual o autor dedica especial atenção ao livro Tempos Interessantes (Interesting Times), uma narrativa histórica e autobiográfica de Hobsbawm. A coletânea de ensaios de Judt foi publicada no Brasil em 2008, pela Objetiva, com o nome Reflexões sobre um século esquecido: 1901-2000. O trecho entre aspas, selecionado pelo articulista, está ao final da página 147.
Claro, Tony Judt, ele próprio, o autor da crítica, não teria sugerido estas palavras como epitáfio para Hobsbawm. Muito ao contrário, tendo partido desse mundo quase dois anos antes do amigo e colega de profissão (Tony Judt nasceu em 1948 e Hobsbawm em 1917), a ele as endereçou, de maneira corajosa e elegante, enquanto o criticado ainda era vivo, pelo prazer do debate intelectual aberto entre “historiadores politicamente comprometidos” – para usar de uma expressão do próprio Hobsbawm, em artigo (After the Cold War – Eric Hobsbawm remembers Tony Judt) que saiu na London Review of Books, vol. 34, nº 8, p. 14, em 26/04/2012.[2]
É recomendável a leitura do ensaio de Judt em sua íntegra (Eric Hobsbawm e o romance do comunismo, pp. 137-150). O que ali se vê é realmente uma opinião bastante dura, ou “ataque implacável” (implacable attacks), nas palavras usadas por Hobsbawm (artigo da London Review of Books), mas, ao contrário do que podem sugerir as três colunas da Folha, em nenhuma passagem do ensaio de Judt será possível encontrar nada parecido com o julgamento extremista e desmedido do articulista – “história de cartolina”, “contrafação da história”, “veredicto de absolvição dos processos de Moscou”, “falsificação deliberada”, entre outras.
Ninguém melhor que o próprio Hobsbawm para oferecer uma resposta a Tony Judt. Nos tempos da Guerra Fria, suas preocupações também não eram as ameaças soviéticas aomundo livre”, “mas as discussões dentro da esquerda”; “seu tema sempre foi Marx, não Stalin e o Gulag” (Yet it is evidente from Thinking the 20th Century that his basic concern during the acute phase of the Cold War was not the Russian threat to the ‘free world’ but the arguments withim the left. Marx – not Stalin and the Gulag – was his subject).
Dentro da esquerda, registra Hobsbawm, o ideal de seu crítico era a restauração da social democracia.
No ponto específico da discussão entre os dois historiadores, o artigo de Hobsbawm, na London Review of Books, é de leitura obrigatória para aqueles que não aceitam julgar sem antes dar a palavra ao “acusado”. Aqui vai um trecho especialmente interessante:
Tony foi, é claro, tão anti-Stalin quanto qualquer outro, e crítico amargo dos que não abjuraram o Partido Comunista, mesmo que se tenham provado satisfatoriamente anti-stalinistas e, como no meu caso, já estejamos lentamente nos livrando da esperança original de outubro de 1917. Como os sionistas que se opuseram a encenações de Wagner em Israel, Tony foi dos que deixam a antipatia política se antepor ao prazer estético, descartando o poema de Brecht sobre quadros do Comintern, An die Nachgeborenen (Os Admirados por Tantos), como poema “repulsivo”, não em termos literários, mas porque inspirava pensamentos maléficos aos crentes.
Como crítica, o texto do articulista da Folha não traz nenhuma novidade, ao menos não naquilo que constitui o núcleo de conhecidas censuras, velhas e surradas críticas há muito dirigidas a Hobsbawm, todas elas variações de um mesmo tema central que é “poupar Stalin ou absolvê-lo”. E isso “por não ter abandonado o partido” ou não haver renegado o passado de ativismo comunista, argumento igualmente conhecido e já explorado à exaustão. Eric Hobsbawm nunca omitiu o lugar de onde estava falando e não se escondeu atrás da autoridade, real ou suposta, deste ou daquele intérprete da história. Não renegou os tempos de militância comunista, mas foi tão anti-stalinista como “todo mundo”, pode-se dizer. Pouco antes de sua morte, às vésperas de completar 95 anos de idade, atravessando, ele mesmo, quase um século inteiro de vida lúcida e intensa, revela que já estava se “livrando, lentamente, da esperança original de outubro de 1917”. Sua historiografia marxista, livre de mitos, sobrevive às “marteladas” de 1989 num certo muro em Berlim, entre outras razões, porque não escolheu para si a tarefa de “julgar” a história, mas “compreendê-la” – para usar das expressões de Marc Bloch.
O que a crítica de Magnoli tem de mais perverso é que despreza exatamente aquilo que constitui o grande referencial da memória sobre Hobsbawm, sua luta contra o fascismo. É o que diz Alexandre Fortes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro[3]:
Forjado intelectual, política e eticamente na luta antifascista, Hobsbawm dedicou uma longa vida de trabalho intenso a fazer do estudo crítico do passado um instrumento para ampliar a capacidade dos seres humanos construírem coletivamente um futuro melhor, desafiando o poder esmagador de fatores estruturais de diversas ordens.
Em sua última publicação, lançada no Brasil em 2011 pela Companhia das Letras, Como mudar o mundo, uma coletânea de vários textos escritos entre 1956 e 2009, esclarece Hobsbawm:
...a maioria dos capítulos dirige-se a leitores com um interesse maior por Marx, pelo marxismo e pela interação entre o contexto histórico, de um lado, e o desenvolvimento e a influências das ideias, de outro. O que tentei fazer foi mostrar a esses dois grupos que a discussão de Marx e do marxismo não pode ficar limitada ao debate a favor ou contra, ao território político e ideológico ocupado pelas diversas e mutantes variações marxistas e de seus antagonistas. Durante os últimos 130 anos, o marxismo foi um tema importante no concerto intelectual do mundo moderno e, através de sua capacidade de mobilizar forças sociais, uma presença crucial e, em alguns períodos, decisiva, na história do século XX. Espero que meu livro ajude os leitores a refletir sobre a questão de qual será o futuro do marxismo e da humanidade no século XXI.
A propósito da “valiosa” historiografia britânica que se seguiu ao fim da 2ª Guerra, Josep Fontana (História – análise do passado e projeto social. Bauru, SP: Edusc, 1998, p. 244) aponta, além de Eric Hobsbawm, também Gordon Childe, Christopher Hill e Rodney Hilton. Por isso mesmo, quando o articulista, sem medir excessos, no auge de seu delírio ideológico, apresenta a historiografia de Hobsbawm como “inspirada diretamente pelas narrativas oficiais fabricadas por Moscou no imediato pós-guerra”, ele não deve ser levado a sério. Esta é uma lógica parcial, pobre e empobrecedora que não atinge um homem só, mas toda uma escola de historiadores. Eis a idolatria ao “monismo da causa”, o sofisma do inquisidor: “todo comunista é stalinista, logo, propagador da história oficial de Moscou”. A frase é anacrônica e panfletária. Podia causar algum impacto no Brasil, ao final da década de 70 e início dos anos 80, quando diversas correntes de esquerda marxista discursavam como se a Guerra Fria fosse assunto do jornal do dia e vendiam – ou doavam – seus jornaizinhos panfletários repletos de frases de efeito. Nesta época, Magnoli era trotskista – não sei se ainda é... Hoje em dia a frase panfletária soa como dizer que “antissionismo” é o mesmo que “antisssemistismo”. Não “cola” mais – pelo menos não em todos os países e para a uma grande parte dos leitores.
A historiografia de Hobsbawm passou pelas “provas científicas” e sobreviveu a outras acusações da mesma ordem que lhe foram lançadas no passado. O ataque do articulista carrega a mesma “justificativa” que determinou a perseguição contra os historiadores marxistas no pós-guerra, quando foram acusados, “por insignes mediocridades acadêmicas, como Hexter”, de “trair a dignidade do ofício” (J. Fontana).
Depois de 1956, “convencido de que o Partido, por não ter se reformado, não tem futuro político a longo prazo no país”, Hobsbawm abandona o ativismo comunista, “embora sem sair do partido”, como repara Tony Judt. Sobre a crise política de 1956, com a intervenção soviética na Hungria, Fontana novamente (A história dos homens. Bauru, SP: Edusc, 2004, pp. 330 e ss) registra que nenhum daqueles historiadores “abandonou, no trabalho intelectual, uma linha que, embora com mais liberdade, conservava o essencial da inspiração marxista”, citando Thompson e Hobsbawm, como estudiosos da “história dos de baixo”, “marcados pela preocupação em recuperar os rostos da multidão”.
Hobsbawm não se dedicou à mentira, como também não escolheu ser juiz de Stalin ou seu biógrafo. Um bom juiz, desses que não dispensam as provas, concluiria que as acusações do “advogado” Demétrio Magnoli não têm procedência. O historiador não é o homem que o articulista quer enterrar como um covarde da esquerda que, por muito tempo, como disse Tony Judt, “evitou confrontar o demônio comunista preso no armário da família”. Ao revés, ele teve coragem suficiente para “examinar as próprias certezas e ver como a própria vida de cada um é modelada e remodelada pelo seu século” (palavras de Hobsbawm para Tony Judt, no mesmo artigo já citado, que se aplicam perfeitamente ao seu autor). A verdade é que ninguém pode passar pela história dos três últimos séculos sem fazer referência à obra do historiador inglês.
O uso elegante do substantivo “advogado” em relação à postura do articulista da Folha deve-se, mais uma vez, a Hobsbawm, que numa passagem do mesmo artigo já citado se refere a Tony Judt nos seguintes termos: “Sua posição-padrão era de profissional da lei: não de juiz, mas de advogado, cujo objetivo não é nem a verdade nem a verossimilhança, mas ganhar a causa”. O articulista da Folha não está interessado na possibilidade de outras leituras ou versões diferentes da sua, quer ganhar a causa (o “interesse”, a “demanda”), emplacar sua acusação contra o historiador marxista. Não é que não tenha lido Hobsbawm, é pior. É que distorce o texto, não consegue ir além da superfície e não considera, em nenhum momento, o contexto que envolve história (narrativa) e historiador (autor da narrativa). Pior do que um mau juiz, trabalha com as técnicas de um inquisidor. Ofereceria ao “acusado” a salvação de sua alma se este tivesse abjurado o “demônio comunista” e aceitado, com resignação, a “verdade” da inocência norte-americana durante a Guerra Fria, abraçando, sem reservas, o evangelho capitalista pós 1989. O que é imperdoável em Hobsbawm – para Tony Judt, e genericamente para Magnoli – é não ter adotado o pensamento, muitas vezes lançado da academia, de que Socialismo=Gulag. Outro pecado de Hobsbawm foi contextualizar a importância da URSS na derrota do nazismo e apontar o fato de que “não está claro sob que circunstâncias (os E.U.A.) poderiam ter entrado” na 2ª Guerra Mundial, “não fosse Pearl Harbor e a declaração de guerra de Hitler” (Era dos Extremos, capítulo 5, “Contra o inimigo comum”).
Nas páginas de Era dos Extremos, não se vê a tão alardeada sentença absolutória de Stalin nem a contrafação da história – bobagens que a mídia brasileira, de maneira mais ou menos incisiva, está ressuscitando desde a morte recente do historiador inglês. O mesmo Hobsbawm, entretanto, é apresentado por leitores, que vão de uma direita triunfalista do fim da história até uma esquerda congelada nos anos 50, por rótulos que variam de “stalinista” a “anticomunista”. Em que pese não haver mentido sobre Stalin, presidente da era de ferro soviética que “manipulou o terror em escala universal”, como um “autocrata de ferocidade, crueldade e falta de escrúpulos excepcionais, alguns poderiam dizer únicas” (Era dos Extremos, p. 371), sem omitir os gulags, a exploração da força de trabalho de milhões de prisioneiros, Hobsbawm continuará tendo maus leitores, orientados pela ideologia que apenas conseguem enxergar no outro, nunca em si mesmos.
Não falta, portanto, até hoje, quem encontre em Era dos Extremos a tolerância ou a defesa do stalinismo e mesmo o seu oposto perfeito, qual seja, o próprio culto ao totem do anti-stalinismo. Essa outra bobagem, entretanto, não ganha o mesmo espaço nas janelas de ver o mundo que a mídia brasileira, generosamente, abre para nós a cada dia.
Para nossa sorte, podemos ler Hobsbawm nós mesmos, dispensando a intermediação do ex-colunista da Folha de S.Paulo, esta sim, “uma aposta segura de que o leitor médio carece de informações indispensáveis para refutá-la”.
O fato de o historiador inglês “ter mais leitores no Brasil do que na Grã-Bretanha”, como diz o articulista, serviu para que este mais uma vez o desqualificasse, atribuindo o fenômeno à “recepção laudatória” de “intelectuais inconformados” com a queda do muro de Berlim. Aí está embutida uma inexplicável arrogância da parte de alguém que integra uma universidade brasileira – ser lido em português do Brasil seria evidência de inferioridade da obra?
Acontece que Hobsbawm não é o historiador mais conhecido no Brasil. É o historiador mais conhecido no mundo inteiro. Ele foi traduzido em mais de 40 idiomas. Disse Tony Judt que “em partes da América do Sul – especialmente no Brasil – ele é um herói cultural popular”. Apesar do exagero de seu colega – “herói cultural popular” – que não consegue disfarçar a pontinha de inveja do outro historiador, deve-se registrar o grande feito, porque, no Brasil, afinal, não é fácil a concorrência com o Jornal da Globo e com a novela das 8. E isto, sobretudo, em tempos como os atuais, em que a maioria das pessoas se contenta com a história dos fotógrafos e os próprios historiadores têm pouco espaço entre os leitores que estão fora da academia.
O articulista da Folha dá preferência a uma versão parcial, a uma versão que relegue ao segundo plano, ou apague em definitivo, o papel desempenhado pela União Soviética, ou mais que isso, o papel do socialismo, na derrota dos facismos, reduzindo-a à figura de Stalin e decretando que a “URSS não triunfaria sobre Hitler sem a vasta ajuda militar americana”. Convém registrar que Hobsbawm não trata da atuação norte-americana na perspectiva de “ajuda”. Ele fala de uma situação histórica excepcional em que EUA e URSS “fizeram causa comum” contra a Alemanha de Hitler, “porque a viam como um perigo maior do que cada um ao outro” – o capítulo 5, parte 1, de Era dos Extremos intitula-se “contra o inimigo comum”. A frase simplista de Magnoli sugere, equivocadamente, o maniqueísmo da obra, quando, na verdade, é o articulista que não consegue disfarçar essa tendência.
Em conclusão, não estou afirmando que Hobsbawm está acima de críticas ou livre de erros. Ninguém está. A questão é que o bom crítico, por mais duro que seja, tem a obrigação de não ocultar o objeto de sua crítica, porque precisa lidar com a complexidade da obra criticada, sob pena de reducionismo, de simplificação. No meu modo de ver, não é fácil realizar uma boa crítica, porque esta é uma arte que pressupõe, em primeiro lugar, saber ouvir. Essa abertura ao horizonte do “outro”, o criticado, é, como eu entendo, algo que não se confunde com passividade, mas é pressuposto inarredável de honestidade intelectual. Numa palavra, o bom crítico não se desincumbe dessa tarefa apenas por demonstrar seu talento em construir boas frases de efeito. Ele deve demonstrar, acima de tudo, que conhece o que critica. A crítica reducionista é ainda pior do que a pior obra criticada.
A melhor resposta a esse tipo de crítica foi dada pela ANPUH – Associação Nacional dos Professores Universitários de História – a uma certa revista de má visão e se aplica inteiramente às três colunas do articulista:
Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal.
Em outra ocasião, o sociólogo já se mostrou um mau leitor ou, quem sabe, um não-leitor, a propósito da monografia de Karl Philipp von Martius, o botânico que venceu o prêmio oferecido pelo IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1840, para quem apresentasse o melhor trabalho sobre como escrever a história do Brasil, ou, como conferir uma identidade ao Brasil-nação, ou ainda, como disse Lilia Schwarcz, como “inventar uma história para o Brasil”. O sociólogo viu na monografia de Karl von Martius a ideia de que a história do Brasil deveria ser contada como uma “história de mescla de raças, o encontro, a confluência de três rios, o rio dos africanos, o rio dos europeus e o rio dos índios”, numa época em que os E.U.A. e a Inglaterra queriam separar as raças e promover o retorno dos negros à África – e, mais que isso, estavam fundando países que iriam receber de volta os ex-escravos, como a Libéria e a Serra Leoa. “Esqueceu-se”, no entanto, de dizer que o Brasil também embarcou muitos negros libertos para a África, entre os séculos XVIII e XIX, cujo destino era a cidade de Lagos (Èkó, em iorubá), na Nigéria. O que ele destaca como “interessante” é que, enquanto no Brasil se falava “na mescla, na mistura”, os outros países “estavam falando na separação de raças”. Este seria, para Demétrio, “o ponto de partida legal para se pensar uma ideia de nação aqui no Brasil”. Propõe, na verdade, a refundação da ideia de democracia racial brasileira que só muito recentemente vem sendo desmistificada.
Magnoli sugere um retorno ao ponto de partida lançado em 1840, exatamente aquele que, nas palavras de José Carlos Reis, “se entranhou profundamente nas elites e na população brasileira”, pois o que Von Martius lançou foram “os alicerces do mito da democracia racial brasileira”, o “elogio da colonização portuguesa” que, mais tarde, vai reaparecer com Gilberto Freyre, como “reelogio”, na abordagem cultural e “empática” de Casa Grande & Senzala – ainda de acordo com José Carlos Reis (As identidades do Brasil, vol 1. Rio: FGV, 2007).
Ele não vê, ou não quer ver, que os três rios – “Precisa ler!”, como disse Lilia Schwarcz – compunham uma unidade construída na base da hierarquia e na diferença entre brancos, negros e indígenas. Lilia Schawrcz explica, em entrevista no programa de Jô Soares: Von Martius dizia que “há um rio importante, muito caudaloso, o rio branco”, um outro rio “mais ou menos” e “que faz muitas curvas”, o rio negro, e finalmente um “rio pequenininho que é o rio indígena”.
“No essencial” – diz José Carlos Reis a propósito do “ponto de partida de Magnoli” – “a história do Brasil será a história de um ramo dos portugueses, pois o português foi o conquistador e senhor, ele deu as garantias morais e físicas ao Brasil”, “foi o inventor e motor essencial do Brasil”. “Quanto às demais raças, o historiador filantrópico, humano e profundo cristão, não poderá deixar de abordá-las. Deverá defender essas raças desamparadas”. Por isso, “dará alguma ênfase à história dos indígenas”, mas, “quanto ao negro, ele será breve, oferecendo poucos dados e propondo algumas poucas questões”.
Penso que Magnoli leu Von Martius, mas aqui também distorceu o texto. Aqui novamente se comporta como o homem de uma causa única, que prefere um processo sem provas, afinal, exigências probatórias não passam de firulas que existem apenas para assegurar a impunidade – “dos poderosos”, acrescenta. Ele não busca a verossimilhança com a preocupação de um juiz, mas apenas quer “ganhar a causa”. É sabido que o sociólogo é um forte opositor da política de cota racial. Não seria absurdo concluir, nessa linha, que o ponto de partida de Von Martius seria um bom argumento para sua causa, desde, é claro, que os “três rios” não sejam apresentados exatamente como os descreveu o alemão que ganhou o primeiro concurso de monografias do IHGB.
Como crítico, é advogado; como juiz, é inquisidor e como ex-articulista da Folha de S.Paulo surge e ressurge como as ondas na qualidade de “opinador de plantão”. Desta vez, revelou-se um entendedor das leis processuais. Sua tese é clara, provas são exigências para absolvição dos poderosos (“...atos de ofício, documentos assinados, gravações para se condenar”, são “exigências” cuja finalidade é “assegurar a impunidade de poderosos”). É bom registrar que, à parte as discussões sobre o grau de certeza, a verossimilhança, o indício – algo provável entre o certo e o incerto, todos nós temos direito a opiniões. Ao STF compete julgar. De minha parte, trago dentro de mim uma esperança, a de que a opinião de Magnoli não crie “jurisprudência”, pois não se faz justiça com dois pesos e duas medidas. Além disso, a justiça de todo dia não se realiza sobre “os poderosos”.
Condenar José Dirceu, para muitos, é condenar o PT. O mesmo PT a quem Hobsbawm, em Tempos Interessantes, considera um exemplo político capaz de assegurar consequências e desdobramentos permanentes (afirmação esta que também pode ressoar em certos ouvidos como outro “pecado”).
Na história como no direito, o futuro é construído a partir do presente. Não há um passado que se imponha por si mesmo ou que se imponha como mera hipótese teórica, como crença ou como causa. O problema do historiador com o passado é saber como interrogá-lo, diria Marc Bloch, “a ignorância do passado não se limita a prejudicar o conhecimento do presente, comprometendo, no presente, a própria ação”. Enfim, penso que é o futuro que está em jogo.
Antes de ser fuzilado pelos alemães em 16 de junho de 1944, Marc Bloch trabalhava em seu último ensaio, publicado em 1949, por Lucien Febvre, com o título Apologie de l’histoire ou Métier d’histoiren. Segundo Bloch, nenhuma hipótese é evidente, é preciso prová-la. A última frase do livro é particularmente importante para os tempos atuais: as causas (aqui no sentido de “explicações”), em história como em outros domínios, não são postuladas, são buscadas.