sábado, 19 de março de 2011

50 anos

Beatriz Vargas Ramos

Um dia eu vim...
Não me lembro como nem quando.
Sei do que me contaram...
Que vim à força, a fórceps, tenaz
Eu não sabia como foi ou como seria,
Nem sei se queria, só sei que cheguei.
Nada escolhi.
- Ninguém escolhe –
Mas tive sorte, eu tive amor.
Depois veio o tempo do medo.
Tempo lento, paralisado,
Sem saída, sem futuro.
Tempo de palavras sem fala,
Meu silêncio.
Tempo da consciência do medo.
Medo da lua, do escuro, do trovão.
- Atavismo? Acho que não... -
Tempo de desamparo e de abismos,
Da escola-prisão, da cidade-prisão.
Naquele tempo lento somente o rio era movimento...
O trem-de-ferro, minha metáfora do mundo,
Mundo que eu não conhecia, mundo que não era meu.
Tinha pressa de viver, de seguir os trilhos,
Mas não saí da estação.
A ponte imóvel, a pedra imóvel,
A hora dos sinos, do apito da fábrica,
Surpresa nenhuma, nenhuma transformação.
Ritmo de velhos em procissão.
A mesma festa de São João.
Só o cinema fechou.
Caminhos batidos.
Faria Lemos, Carangola, Catuné,
Pedra Dourada, Espera Feliz,
Uma vez Manhuaçu, Manhumirim,
Porciúncula, Natividade, Varre-Sai.
O ir e vir da escola:
- “Bom dia, Dona Dinorah”!
- “Boa tarde, Seu Olinto”!
O prédio branco do hospital,
A cadeia cinza, a escola cinza,
A praça da matriz e as murtas podadas em forma de bichos.
Desfilam os loucos sobre os paralelepípedos da rua principal.
E tinha Sá Eulália em visitas à casa de minha avó.
- Sá Eulália não acreditava em arranha-céus -
Foi escrava, todos diziam, e ela confirmava,
Mas não tinha idade, não se lembrava, de tão velha.
Tinha o Homem do Palmito que batia de casa em casa:
- “Olha o palmito”! – e eu fugia dele, com medo do surrão.
O hotel ainda está lá, hoje se chama “Colonial”.
O trem da Leopoldina não existe mais.
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Meu pai me acudia nas noites de pesadelo,
Eu chamava meu pai que me contava histórias:
Nesse surrão entrei, nesse surrão morrerei,
Por causa do brinco de ouro, que lá na pedra deixei”...
Minha mãe cantava e eu dormia.
Meu pai gostava de Sarita Montiel, La Violetera
- María Antonia Alejandra Vicenta Elpidia Isidora Abad Fernández -
E ouvia no rádio a Ângela Maria.
E eu repetia: “Nikolas Anlexandrovich Eristoff”
E “Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim
- Eu gostava de provocar o riso, ainda gosto –
Em maio, minha mãe me vestia de anjo azul.
Minha irmãzinha era o anjo cor-de-rosa, tão bonitinha...
Triste anjinho era eu...
(Minha mãe era a única que pensava
Que eu seria a rainha da primavera da Escola).
Maio era o frio e sempre será o cheiro de café com leite,
De pão quente com manteiga, de bolo assando,
Cheiro de pão de batata no forno à lenha da vó Dedê,
De goiaba no pé, de goiaba no tacho.
Dezembro era a missa do galo, nozes e rabanadas,
Passeios no Jipe do meu pai, na estrada de terra para Varre-Sai.
E as mangueiras do pomar...
Mais adiante a solidão me aguardava.
Mundo hostil, sem amigos.
- Naquele tempo eu ainda não sabia
Que não me pertencia o fardo que suportei -
Sem defesa, sem razão.
Sem mar, sem filosofia.
Minha, só minha, era a dor que eu sentia,
Aquela dor que era minha,
Uma dor somente minha,
Minha dor que eu carreguei.
Cerca de arame farpado.
Feia, magrela, pés chatos, boca suja.
No lado gauche da vida me confortei.
Estranha philia de negra e judia
- O navio negreiro, espumas flutuantes, a história de Anne Frank -
Me afeiçoei aos poetas, aos miseráveis, aos doentes,
Aos bandidos e aos dementes,
Aos hereges e aos mal agradecidos eu me aliei.
Ah, se eu pudesse ter minha temporada no inferno!
Ah, se eu fosse Rimbaud!
Ah, se eu falasse francês e fumasse ópio...
Se me mudasse pra Paris!
Se morresse jovem, se ficasse tísica,
- Alguém teria pena de mim? -
Ah! Se eu fugisse com o circo mambembe,
Se os ciganos me levassem pra longe,
Se eu partisse no disco voador...
Se eu nunca mais voltasse, se não sofresse mais.
Alma pequena, afligida e torturada,
Construí meu próprio gueto,
Meu quilombo, meu refúgio...
Sob as copas exuberantes das mangueiras do pomar
Eu me escondi.
Me trancaram no armário, tomei caldo na piscina,
A torcida queria se vingar de mim...
Apanhei muito, mas também bati.
Até aqui cheguei...
“Do tempo que sobre a terra me foi concedido”
Já se passaram 50 anos.
Vivi, sobrevivi.
Graças à cesariana, ao hormônio sintético
E às drogas de controle do nível de açúcar
Sou viável no século XXI.
Já teria morrido três vezes no passado...
Eu tinha minha irmã, minha mãe, meu pai, meu avô,
Meu aconchego, minha proteção.
Eu tinha ciúmes do meu irmão.
Meu irmãozinho, leãozinho, nossas brigas sem razão...
Eu não tive tempo de contar ao meu pai
Que meu ciúme ficou para trás...
Ah! Quantas coisas eu nunca mais pude contar ao meu pai...
Nas férias eu tive amigos, meus primos,
Minha Monark vermelha, meus desenhos, meus bichos
- Godofredo de Bulhões, Rolinha, Petit Pois
Os porquinhos da India, o jabuti, o cachinguelê -
Meus livros, minhas bonecas de papel,
Meus sonhos, meus planos.
Tinha a Olivetti portátil que meu pai trouxe do Rio,
Meus escritos, meus poemas... meus afetos,
Minha Professora, Dona Gilka, meu anjo da guarda,
Tia Edith, tão boa, tão sozinha, tão tristinha,
Minha doce avó Filhinha,
Meu amigo Zé Aguiar, que levou pra sempre meu Mar de Mineiro.
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Cresci... chegou o tempo em que eu sabia tudo,
Podia tudo e não temia mais.
Belos Horizontes se abriram,
Abri os braços, enchi os pulmões.
Era o tempo da amizade.
Depois muitos ganhos e perdas
E também muitos enganos.
Vidas no fim e no começo.
As viagens que nunca fiz,
Os abraços que nunca dei,
Todos os vinhos que eu bebi,
Todos os choros que eu chorei...
Ah! Se eu fosse bailarina,
Se eu tocasse piano, se eu fizesse música...
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Amadureci...
Soltei o verbo, soltei a franga,
Não tenho verba, não acumulei.
Amores vieram e amores passaram.
A criança desamparada também passou.
Nada dura cem anos,
Só a solidão dura cem anos...
Vieram meus filhos, entendi minha mãe.
Ah! Os filhos ensinam!
Como são amados os filhos!
Por causa deles, entendemos melhor o amor,
O amor aos outros e aos filhos dos outros.
Eles são para sempre... os filhos.
Eu também quero netos!
A eles vou ensinar todos os palavrões que eu sei
- Os melhores palavrões são em português -
Tenho dúvidas, cometo erros,
Pobre de quem nunca erra...
Minto e devo, devo e não minto.
Ainda choro, sofro outras dores só minhas.
Tenho medo da loucura, medo de perder a memória,
De ficar cega, de perder os filhos, medo de ficar velha senil.
- E também um medo indescritível de barata -
Não sou patriota, não sou de direita,
Não sou otimista nem fundamentalista,
Não gosto de sofrer.
Nada de vítimas, nada de carrascos.
Exorcizei a culpa confirmada pelo batismo.
Nenhum Deus.
Não preciso de um pai, não quero senhores nem reis.
Posso ter as ondas do mar, posso ver o mar,
Posso sentir o vento no rosto.
Ah! Se eu fosse jovem outra vez.
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Um dia eu vou embora,
Não sei como
- Ninguém sabe -
Só sei que vou partir,
Voltar para o lugar de onde eu vim.
Sei que vou, mas vou sem medo,
- Não tenho mais medo do escuro, ele faz parte de mim –
Sem inferno e sem paraíso.
No fim há um poço cego, diz o poeta,
Caminho só de ida.
Mas assim também é a vida,
Não tem volta...
Talvez, quem sabe, alguma luz.
Já me conformei com a partida,
O fim é menos insuportável que a ideia de nunca ter fim.
Só não queria ir embora no meio da festa...
Não levo bagagem,
Não preciso de nada,
Meu vôo será leve e sem controle,
Apenas vou... quero me deixar voar.
Nada me pesa, recusei a herança do ódio.
Irei em paz,
Sem culpa nem perdão,
O perdão precisa da culpa,
Eu não tenho culpas e nem culpados.
Fiz escolhas,
Nenhuma escola me fez.
Eu sou de todo lugar, qualquer lugar, lugar nenhum.
Só queria viajar... os trilhos, o mar.
O rio trágico e seus barcos fantasmas, o trem-de-ferro.
Ah! O trem...
Nunca mais o trem.


(Fevereiro de 2011)